O Tottenham gastou 400 milhões de libras na janela de transferências, trocou mais de dez jogadores e, após cinco rodadas depois do início da Premier League, o futuro é incerto para o técnico Roberto De Zérbi. Com isso, a pausa internacional é encarada como um momento de definição.
Sem uma pré-temporada com todo o elenco à disposição, dois reforços chegando depois da estreia na competição fica a pergunta: a construção do elenco foi bem feita?
O Tottenham entrou em 2026/27 com uma ambição real pela primeira vez em anos. Dois décimos-sétimos lugares consecutivos colocaram o clube em um momento delicado, e o clube londrino decidiu apostar em Roberto de Zerbi, que salvou o time do rebaixamento na temporada anterior.
O investimento beira 400 milhões de libras, um número histórico para um clube que sempre foi reconhecido pela cautela na montagem do elenco. De repente, parte da torcida estava projetando troféus e vaga nas primeiras colocações.
Dinheiro compra jogadores, mas não um time
De Zerbi é um treinador de método. Seu estilo, construído ao longo dos anos no Brighton, é marcado por agressividade com a bola, pressão alta desde o campo adversário e transições rápidas. Esse sistema exige que cada peça do elenco entenda com precisão o papel que desempenha dentro de um coletivo.
Isso se constrói no campo de treinamento, em repetição, em erros corrigidos, em confiança desenvolvida entre jogadores que precisam de entrosamento. Nenhum desse processo parece ter acontecido da forma que precisava.
A pré-temporada, que deveria ser o período para desenvolver a equipe, passou sem que boa parte dos reforços estivesse disponível. Quando a Premier League começou, De Zerbi ainda estava montando o time. Praticamente impossível impor princípios táticos quando o grupo muda de semana a semana.
Cinco rodadas depois, o Tottenham acumula problemas pontuais. Não consegue se recuperar quando sai atrás no placar, e o desempenho em casa tem ficado abaixo do que o investimento sugere. Esses dados refletem exatamente o estágio em que a equipe está. Jogadores que ainda não têm o reflexo coletivo para reagir, e uma torcida que jogou expectativas nas alturas sem compreender o tamanho do processo que havia pela frente.
A pausa internacional chega no momento mais crítico para De Zerbi
Quando um treinador está tentando criar entrosamento entre jogadores com históricos, idiomas e formas de jogar diferentes, cada dia de treino em conjunto vale. Entretanto, a data FIFA leva esses mesmos jogadores para seleções espalhadas pelo mundo, com comissões técnicas diferentes e sistemas distintos, por três semanas. Dessa forma, o trabalho que De Zerbi está construindo precisa recomeçar, ao menos parcialmente, quando o grupo voltar.
Há um paralelo que ajuda a entender o desafio dos Spurs. Clubes como Brighton e Brentford trocam jogadores com frequência alta, às vezes com mudanças de comissão técnica, e ainda mantêm consistência porque sua identidade coletiva está fixada.
O DNA tático está tão integrado no ambiente que um novo jogador chega sabendo o que vai encontrar. O Tottenham não tem isso e o clube chegou a De Zerbi sem uma identidade consolidada, reconstruiu o elenco e espera resultado imediato.
A matemática não fecha
O que De Zerbi tem ao seu favor é o estilo de jogo que marcou seu trabalho no Brighton. Ele quer posse de bola de qualidade, transições rápidas e pressão desde o campo adversário. Isso é exatamente o que o Tottenham não tem agora e pode ter no futuro.
Mas o futuro nesse contexto pode não ser no próximo mês. Cinco rodadas é cedo demais para qualquer diagnóstico definitivo. Os torcedores que hoje pedem a saída de De Zerbi são os mesmos que ficaram entusiasmados com um gasto histórico sem entender que investimento não é sinônimo de entrosamento.
O treinador precisa trabalhar com as ferramentas que tem, e no tempo que conseguir entre pausas, calendários apertados e jogadores que ainda estão se adaptando ao clube.
A janela de paciência existe. A questão é se o ambiente ao redor do Tottenham vai permitir que ele a use.
Perguntas frequentes sobre De Zerbi e o Tottenham na Premier League 2026/27
Por que o Tottenham está tendo um início difícil na Premier League 2026/27?
O clube reformulou o elenco com mais de dez contratações em uma única janela, sem que os jogadores tivessem uma pré-temporada completa juntos. Entrosamento tático leva tempo, e é exatamente esse tempo que De Zerbi ainda não teve para construir.
De Zerbi corre risco de ser demitido pelo Tottenham?
Com cinco rodadas disputadas, qualquer decisão desse tipo seria precipitada. De Zerbi chegou ao clube com um projeto acordado com a direção, teve suporte financeiro e salvou o time do rebaixamento na temporada anterior.
O que é o estilo de jogo de De Zerbi?
De Zerbi constrói times que jogam com agressividade com a bola, pressão alta no campo adversário e transições rápidas. É um sistema que exige entendimento coletivo, e por isso leva tempo para funcionar quando o elenco muda de forma tão ampla em um único verão.
Gustavo Ribeirão é jornalista esportivo com 15 anos de carreira, incluindo passagens por Band, Fox Sports, DAZN, Canal Goat e TV Cultura. Foi correspondente do DAZN na Inglaterra entre 2019 e 2023.
